Agência UFC: Doenças tropicais negligenciadas persistem em vilas do Projeto de Integração do Rio São Francisco no Ceará
- Quarta, 11 Fevereiro 2026 08:10
Mesmo com infraestrutura moderna e condições sanitárias adequadas, comunidades reassentadas pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco no Ceará ainda enfrentam ameaças de antigas doenças tropicais associadas à pobreza. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou casos de esquistossomose e a presença de barbeiros – insetos vetores da doença de Chagas – em vilas produtivas rurais localizadas nos municípios de Jati, Brejo Santo e Mauriti, no sul do estado. Os resultados foram publicados no periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS, da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde.

As análises foram realizadas entre 2019 e 2020, envolvendo moradores de áreas que receberam mais de 200 famílias reassentadas pelas obras de transposição. Segundo o farmacêutico e doutor em Saúde Pública pela UFC José Damião da Silva Filho, os achados revelam que “a infraestrutura, por si só, não elimina o risco”. Ele ressalta que fatores como vulnerabilidade social e acesso limitado aos serviços de saúde continuam sendo determinantes importantes para a manutenção dessas doenças nas comunidades.
Nos testes realizados para esquistossomose, 11,5% dos 234 participantes apresentaram resultados positivos no exame de urina. Já nas análises para doença de Chagas, das 368 amostras de sangue coletadas, a prevalência foi de 0,3%. Barbeiros foram encontrados em quatro das 245 casas inspecionadas, embora nenhum deles estivesse infectado pelo Trypanosoma cruzi, agente causador da doença. “A simples presença desses insetos dentro e ao redor das residências mostra que o risco ainda existe e precisa ser monitorado”, alerta o professor Fernando Schemelzer de Moraes Bezerra, do Departamento de Análise Clínica e Toxicológica da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da UFC.
A equipe também realizou triagens para hanseníase em 300 moradores, sem identificação de casos confirmados. Ainda assim, os pesquisadores reforçam a necessidade de vigilância ativa e permanente, considerando que os municípios estudados integram áreas historicamente endêmicas para essas enfermidades. Entre as ações recomendadas estão o treinamento de agentes de saúde, a educação da população sobre prevenção e o fortalecimento da integração entre vigilância epidemiológica e atenção primária.
Para José Damião da Silva Filho, o enfrentamento às doenças tropicais negligenciadas exige uma visão ampla e integrada. “A saúde pública precisa olhar para além das paredes das casas”, afirma. O grupo pretende revisitar as vilas para investigar os impactos da chegada efetiva das águas do São Francisco sobre o comportamento dos vetores e a incidência das doenças. A pesquisa contou com apoio do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS) e parceria da Secretaria da Saúde do Ceará e das prefeituras locais.
Saiba mais sobre a pesquisa no site da Agência UFC, veículo de divulgação científica da universidade.
Fontes: Fernando Schemelzer de Moraes Bezerra, professor do Departamento de Análise Clínica e Toxicológica da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da UFC – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. / José Damião da Silva Filho, doutor em Saúde Pública pela UFC – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.







