Campus de Quixadá realiza a maior colação de grau de sua história, formando 95 novos profissionais

As cadeiras e o púlpito montados no gramado causavam surpresa em quem chegava ao Campus de Quixadá da Universidade Federal do Ceará (UFC), na quarta-feira (11). Pela primeira vez, a cerimônia de colação de grau foi realizada ao ar livre – com o aumento do número de formandos, o espaço interno ficou pequeno. Inaugurado em 2007, ao longo de quase duas décadas o campus consolidou-se como polo de tecnologia da informação (TI) no estado, atraindo pessoas interessadas especificamente na grade curricular de seus cursos, em seu time de docentes e técnicos e nos projetos ali desenvolvidos.

Imagem: Vista aérea de uma cerimônia de formatura ao ar livre durante a noite. Dezenas de pessoas estão sentadas em cadeiras organizadas em fileiras sobre um gramado. À frente, uma mesa coberta com toalha branca e azul fica diante de um pequeno palco onde professores ou autoridades estão sentados.

Foi o caso de Fellipe Mayan da Silva, de 26 anos, um dos 95 concludentes do semestre 2025.2 que colaram grau nesta semana. Natural de Jaguaruana, no extremo leste do estado, ele chegou a considerar o curso de Design em Fortaleza, mas optou por Design Digital em Quixadá. “Observando a grade vi que o curso permitia integrar mais as práticas de design, a estética com a parte mais funcional e o desenvolvimento de produtos na parte da programação. Foi o que me fez escolher”, contou.

Além das dificuldades enfrentadas no período da pandemia de covid-19, Fellipe também precisou ser estratégico para conciliar o trabalho com os estudos. “Aumentei um pouquinho a duração do meu curso manejando a quantidade de disciplinas, mas sempre com o foco de terminar o curso, porque os estudos são prioridade. Valeu a pena”, comemorou. 

Imagem: Homem jovem usando beca preta de formatura, faixa azul e óculos está em pé em um jardim durante o dia. Ele levanta a mão para segurar ou ajustar o capelo sobre a cabeça. Ao fundo há árvores, gramado e grandes formações rochosas, com luz do sol iluminando o cenário natural.

A excelência que vem sendo construída no Campus de Quixadá também foi o motivo da escolha de Romylson Mendonça, de 29 anos. “Eu já gostava da área de TI, e ouvia muito falar daqui como um polo. Tentei duas vezes para conseguir passar”, lembra.

Natural de Baturité, Romylson foi beneficiado com auxílio-moradia da UFC para poder se manter em Quixadá. Ele também cita a isenção no Restaurante Universitário (RU) como política fundamental nesse período. Ainda assim, a necessidade de conciliar trabalho e estudos chegou, fazendo com que ficasse devendo horas complementares mesmo após a defesa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). “Defendi ainda no início da pandemia, em 2020, mas só estou me formando agora por conta disso”, explicou.

Imagem: Homem sorridente vestido com beca preta de formatura e faixa azul segura um bebê no colo. O bebê também usa uma pequena roupa preta semelhante à beca e segura um canudo de diploma. Ambos estão ao ar livre à noite.

“Andando pelo campus, achei muito mais bonito e estruturado. Gostei bastante, acho que teria preferido começar agora”, brincou. Mas a colação adiada teve um ponto positivo: a participação da pequena Ana Liz, sua filha de 11 meses. Estrela da família, a bebê chamava atenção vestida com uma mini beca, com direito a faixa e jabô.

AFETOS E PROPÓSITO  – No espaço dedicado às fotos e à assinatura das atas, a família de Ana Beatriz Cláudia Machado, de 29 anos, também atraiu olhares, sinalizando uma das histórias mais inspiradoras neste ciclo de colações de grau. Quase egressa do curso de Engenharia de Software no Campus da UFC em Russas, ela precisou trancar sua matrícula no período final do TCC e retornar à cidade natal, onde passou três anos cuidando da madrinha convalescente.

“Ela veio a falecer em 2022, foi quando decidi fazer o Enem novamente. Tinha um amigo, da época da Engenharia de Software, que havia mudado para Design Digital aqui e sempre dizia que o curso era minha cara. Resolvi tentar, passei e me apaixonei. Fiz aproveitamento de disciplinas e, no meu trabalho de conclusão, pude integrar conhecimentos novos e anteriores”, contou Ana Beatriz. 

Em sua pesquisa, a jovem desenvolveu uma caixa medicamentosa a partir do conceito de Internet das Coisas (IoT), com sensores e ícones que orientam pacientes em suas rotinas de medicação. “Pensamos em uma produção de baixo custo porque minha vontade é levar essa solução para o SUS”, continuou Ana Beatriz, que já está cursando mestrado em Quixadá, no Programa de Pós-Graduação em Computação. “Agora quero focar no aspecto da interação medicamentosa, em como podemos melhorar isso com algoritmos”, esclareceu.

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Com a pesquisa, o objetivo é oferecer algum conforto aos pacientes e seus cuidadores, facilitando rotinas. “A partir da minha perda entendi que tinha um propósito. E esse é o papel da universidade, devolver à comunidade o conhecimento que a gente adquire aqui”, resumiu a formanda.

Acompanhada dos pais, de tios e irmã, ela fez questão de trazer fotos da madrinha, Hosana Helena, e do irmão Gabriel Machado, também falecido, em decorrência de um câncer. “Minha família foi meu alicerce, em nenhum momento eles questionaram quando decidi recomeçar do zero em um novo curso”, reconheceu.

Veja outras imagens da solenidade no Flickr da UFC

PROMESSAS E RENOVAÇÕES – Também foi através do luto que Lindberg Júnior, de 31 anos, elaborou seu caminho até a colação. Antes de perder a mãe, ele prometeu que iria retomar os estudos na UFC. “Precisei trancar o curso durante a pandemia e voltar para casa, em Jaguaruana. Quando me preparava para retornar a Quixadá, ela começou a apresentar problemas de saúde e depois descobrimos que era um câncer”, contou.

Lindberg permaneceu com a mãe em Fortaleza, onde ela chegou a fazer tratamento antes de falecer. “No hospital, ela sempre falava que eu tinha que me formar. Foi minha principal influenciadora para sair de casa e iniciar o curso, até porque era professora”, recorda.

Imagem: Homem jovem, de barba e cabelos escuros, veste beca preta com faixa azul na cintura e segura um diploma enrolado com o braço estendido, sorrindo. Ele está em um gramado amplo ao ar livre.

“Depois que ela morreu precisei procurar emprego, mas sempre com a ideia de terminar a graduação. Quando tomei coragem e tive flexibilidade na empresa, assinei um termo e reabri minha matrícula. Vinha uma vez por semana, porque faltava apenas uma disciplina e o TCC”, contou. “Então estar aqui hoje é algo que não consigo nem colocar em palavras ainda”, confessou o formando em Design Digital.

SAUDADE E MEMÓRIA – Escolhida para representar os discentes, a formanda Gabriela Machado Santos falou sobre resiliência, políticas públicas de acesso e permanência na universidade. “Muitos aqui, assim como eu, que fui bolsista do PET TI, dependeram de bolsas, auxílios, RU e do transporte público para permanecer nos estudos. Espero que esses direitos continuem sendo exercidos e que a educação no Brasil melhore cada vez mais, pois para muitos ela é o único caminho capaz de proporcionar uma vida confortável no futuro”, resumiu.

Imagem: Mulher jovem, de cabelos cacheados e escuros, veste beca preta com gola branca e fala ao microfone em um púlpito com o brasão da universidade. Ela aparece de perfil, olhando para a plateia. Atrás dela, em uma mesa longa coberta por toalha branca, estão sentadas várias autoridades acadêmicas usando capas azuis e douradas.

“Para viver a universidade, muitas vezes é preciso abrir mão. Mudar-se para uma cidade diferente, ausentar-se de momentos com sua família e tomar decisões com incerteza e medo. São escolhas que nos tiram da zona de conforto, mas todas elas nos trouxeram até aqui”, continuou a jovem.

Gabriela também recordou aqueles que não puderam estar presentes, incluindo um colega de campus e o próprio pai. “Nós manteremos vivos aqueles que amamos através da memória. Muitas coisas na vida ficam sujeitas a perdas, mas o conhecimento e a educação são conquistas que permanecem”.

Na sequência, o orador docente Paulo Armando Aguiar aproveitou a ocasião para abordar a vocação do campus de Quixadá. “A UFC no Sertão Central nasceu com um propósito muito claro: levar conhecimento, inovação e desenvolvimento com o interior do estado. E vocês são a prova viva de que esse propósito está sendo cumprido. A tecnologia deixou de ser apenas ferramenta, tornando-se infraestrutura da sociedade. E é exatamente por isso que o diploma que vocês recebem hoje carrega também uma grande responsabilidade, a de usar o conhecimento para melhorar vidas, de construir soluções éticas, de inovar sem esquecer as pessoas”, pontuou. 

Imagem: Homem de cabelos cacheados e óculos fala ao microfone em um púlpito com o brasão da universidade. Ele usa roupa preta com capa azul brilhante. Atrás dele, outras autoridades acadêmicas, também com capas azuis e douradas, estão sentadas em uma mesa longa.

“Muitas vezes, a inovação é confundida como algo distante, que acontece apenas em grandes centros tecnológicos no mundo. Mas a verdade é que ela também nasce aqui, nas salas de aula de Quixadá”, prosseguiu o docente.

Por fim, o reitor Custódio Almeida reforçou o aspecto multifacetado da conquista do diploma. “Festejamos porque esta vitória traduz um encontro virtuoso entre oportunidade e esforço, entre política pública e vontade pessoal. Parabéns por vocês terem honrado a UFC chegando até aqui. Permanecer na universidade exige resiliência, disciplina e coragem diante das adversidades. Cada diploma a ser entregue hoje é a prova de um movimento contínuo, muitas vezes lento, silencioso e quase invisível”, observou.

O ciclo de colações de grau 2025.2 encerra-se no próximo dia 17 de março, com a cerimônia do Campus da UFC em Itapajé.

Fonte: Cerimonial da UFC – fones: (85) 3366.7313 e 3366.7314