Agência UFC: Projetos de construção de eólicas dentro do mar podem inviabilizar pesca artesanal no Ceará, alerta estudo

Regulamentados no ano passado, os parques eólicos no mar devem ser submetidos ao primeiro leilão nacional até o fim deste semestre. Com 16 projetos cadastrados, o Ceará é o segundo estado brasileiro com a maior previsão de empreendimentos do tipo. Contudo, um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) aponta que, se confirmadas, as usinas entrarão em conflito com todas as 30 colônias, sindicatos e associações de pesca do estado, podendo, em muitos casos, inviabilizar a atividade de pescadores artesanais.

Imagem: Parque eólico offshore perto de IJmuiden, Países Baixos: ainda não existem empreendimentos do tipo no Brasil, apenas em países do Hemisfério Norte (Foto: Freepik)

Os 16 projetos de parques eólicos no Ceará estão previstos para se localizarem entre dez e 50 quilômetros da costa e somam 2.423 aerogeradores, alcançando 36,1 GW de capacidade instalada. Se aprovados todos, os projetos ocuparão uma área de 10.359 quilômetros quadrados, abrangendo todos os 23 municípios litorâneos do estado.

Essa área coincide com aquela utilizada historicamente pelos pescadores cearenses, os quais, em sua quase totalidade, são artesanais – ou seja, valem-se única e exclusivamente de seu trabalho manual para a atividade pesqueira. Segundo dados de março de 2026 do Ministério da Pesca e Aquicultura, existem no Ceará 33.764 pescadores, dos quais apenas três são industriais. 

Além dos pescadores tradicionais, a pesca artesanal no litoral cearense é também fortemente praticada por comunidades quilombolas e indígenas, conforme o Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro (ZEEC) no Ceará, de 2025. Esses três grupos, aponta o estudo da UFC, devem ser os mais impactados com os empreendimentos no mar.

Isso porque os pescadores artesanais operam por meio de jangadas a vela, e o porte das embarcações têm uma relação direta com os impactos de possíveis parques eólicos offshore, explica a professora Adryane Gorayeb, do Departamento de Geografia da UFC.

Ela é uma das autoras de um estudo que trabalhou com cerca de 100 representantes de diversas colônias de pesca no Ceará, elaborando um mapeamento que apresenta os territórios marítimos utilizados pelos pescadores em sua atividade.

As jangadas a vela, reforça a pesquisadora, dependem do movimento dos ventos para ir ao mar e voltar à costa. “Os pescadores seguem rotas de navegação, tanto de ida como de volta, nas quais eles vão em linha reta, muitas vezes de uma forma angular à costa, mas eles voltam em zigue-zague. Isso quer dizer que eles precisam de um território imenso para possibilitar essa navegabilidade a vento”, explica. E parte desse território pode se tornar inacessível por conta dos parques eólicos.

O assunto é tema de reportagem da Agência UFC, veículo de divulgação científica da universidade.

Fonte: Adryane Gorayeb, professora do Departamento de Geografia da UFC - e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.