Pesquisadores da UFC integram colaboração internacional que investiga efeitos da contaminação por mercúrio tóxico
- Segunda, 25 Mai 2026 12:45
- Escrito por UFC Informa
Estudos já comprovaram que a exposição ao mercúrio tóxico (metilmercúrio) pode causar danos cerebrais, distúrbios renais, respiratórios e de visão. O elemento químico tem origem na poluição industrial, na mineração artesanal e em desastres ambientais, podendo se acumular em ambientes aquáticos e entrar na cadeia alimentar. Pesquisa desenvolvida através da parceria entre Universidade Federal do Ceará (UFC) e as Universidade de Bristol (Reino Unido) e da Califórnia (EUA) mostrou que as formas mais tóxicas do mercúrio têm a possibilidade de afetar também o metabolismo do corpo.

Publicado neste mês na revista Chemical Research in Toxicology, o estudo descobriu que o mercúrio, em um organismo com deficiência de Apolipoproteína E (ApoE), proteína fundamental para o transporte e metabolismo de lipídios no corpo, elevou os níveis de colesterol, triglicerídeos e enzimas associadas ao acúmulo de gordura no fígado. Também provocou alterações na estrutura do tecido adiposo e aumentou o risco de alterações cardiovasculares. O estudo foi decorrente da tese de doutorado de Synara Lopes, orientada pelo professor Reinaldo Oriá, do Departamento de Morfologia da Faculdade de Medicina (Famed/UFC).
Os trabalhos envolveram o Laboratório da Biologia da Cicatrização, Ontogenia e Nutrição de Tecidos (Labiconte/UFC), coordenado pelo professor Oriá, além de uma equipe multidisciplinar com pesquisadores de Bioquímica, Biologia Molecular, Farmacologia, Morfologia e análises computacionais. Entre as instituições brasileiras que também atuaram na pesquisa, estão a Universidade de Fortaleza (Unifor), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Campinas (Unicamp). Essas parcerias fazem parte de um projeto de internacionalização, aprovado no ano passado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A partir de uma integração entre simulações computacionais, desenvolvidas pelo professor Norberto de Kássio Vieira Monteiro, da Pós-Graduação em Química da UFC, e experimentos em roedores, a investigação ampliou a compreensão sobre o modo como a ApoE está envolvida na suscetibilidade à toxicidade do mercúrio. Isso quer dizer, conforme o estudo, que a ausência ou o comprometimento estrutural da proteína deixa o organismo mais suscetível aos distúrbios induzidos pelo metilmercúrio. Apesar das interações já confirmadas, o artigo propõe novas pesquisas, a fim de elaborar intervenções nutricionais capazes de reduzir os efeitos danosos em populações vulneráveis e mais expostas.

“A intoxicação mercurial é endêmica em regiões da Amazônia e outras áreas do Brasil. Os achados do nosso trabalho indicam um potencial efeito do metilmercúrio agravando distúrbios metabólicos, assim chamando a atenção desse problema de saúde pública que pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares em indivíduos de maior risco", indicou o professor. A intenção, conforme Reinaldo Oriá, para aprofundar a compreensão desses efeitos, é seguir com a colaboração em rede com o objetivo de desenvolver outros tipos de análise em modelos animais de intoxicação mercurial e seus efeitos neuroendócrinos.
PERCURSO DA PESQUISA - Para se chegar às conclusões, primeiro foram investigados os efeitos da intoxicação pelo elemento químico em camundongos. Conforme Reinaldo Oriá, foram utilizados tanto animais ApoE nocautes (sem Apolipoproteína E e, portanto, com dislipidemia, distúrbio que afeta os níveis de gordura no corpo) como animais selvagens (com Apolipoproteína E). Uma parte dos camundongos foi exposta, durante 20 dias, à água potável contaminada com metilmercúrio. Como esperado, aqueles que tiveram contato com o elemento químico apresentaram concentrações significativamente mais elevadas no pelo, no tecido adiposo e no fígado do que os grupos não expostos.
Os roedores ApoE nocautes expostos apresentaram índices ainda mais relevantes. A partir desses achados, o estudo chegou à conclusão que a exposição prolongada ao metilmercúrio pode ser ainda mais prejudicial para indivíduos com dislipidemia, podendo também pode provocar um agravamento do risco cardiovascular e o acúmulo acelerado de placas de gordura nas paredes das artérias. De acordo com o pesquisador, como nos camundongos não há diferenças entre as formas de ApoE, como ocorre em humanos, também foi necessária uma etapa de simulações em computadores.

A parte do estudo que contou com análises computacionais teve o objetivo de investigar as interações moleculares entre o metilmercúrio e as diferentes formas de ApoE humana (ApoE2, ApoE 3 e ApoE4). Os resultados sugeriram que duas formas - a ApoE2 e a ApoE3 - podem se ligar mais fortemente ao metilmercúrio, enquanto outra forma, a ApoE4, não apresentou ligação estável. Ou seja, desse modo, o tipo ApoE4 estaria mais suscetível aos distúrbios provocados pelo mercúrio provavelmente por não metabolizar bem o elemento químico.
“Isso é uma hipótese. O nosso grupo planeja uma pesquisa futura para investigar essa possibilidade. Sabe-se que a ApoE4 aumenta o risco dos efeitos neurotóxicos do metilmercúrio, com base em investigação epidemiológica. Já se sabe que humanos portadores do gene APOE4 (portanto que possuem a isoforma ApoE4 da proteína) apresentam mais susceptibilidade da neurotoxicidade induzida pelo mercúrio. Assim, é plausível especular que, tendo ApoE4, diminua a capacidade de eliminar o mercúrio do corpo e piore os sintomas neurológicos da intoxicação. Precisamos investigar com mais profundidade se é esse, de fato, o mecanismo”, explicou.
Fonte: Prof. Reinaldo Oriá, do Departamento de Morfologia da Faculdade de Medicina (Famed/UFC) - e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.







