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UFC e você contra o mosquito

Iniciadas na UFC, pesquisas com pele de tilápia já são aplicadas à odontologia, nutrição e cosmética, além de 13 especialidades médicas

Sucesso no tratamento de queimaduras em seres humanos e animais e em cirurgias de reconstrução vaginal e de redesignação sexual, o uso da pele de tilápia vem ganhando o mundo e desbravando novos horizontes em termos de aplicação. Iniciadas na Universidade Federal do Ceará, as pesquisas hoje já projetam a utilização do produto na odontologia, na nutrição e na produção de cosméticos, e estudos laboratoriais já são feitos em 13 especialidades médicas.

Pesquisador apresenta a pele de tilápia em laboratório

Empreendidos em 2015 pelo médico Edmar Maciel, do Instituto Dr. José Frota, em parceria com a UFC, através do Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), coordenado pelo Prof. Odorico de Moraes, os estudos com pele de tilápia já levaram à criação de diversos produtos, como a pele no glicerol (ou glicerina), a pele liofilizada (desidratada), a matriz dérmica e a extração de colágeno.

A pele no glicerol vem sendo aplicada no tratamento de queimaduras e em usos ginecológicos, e a pele liofilizada, conforme estudos clínicos começados há três anos, vem mostrando resultados equivalentes nesses usos. Já a matriz dérmica e a extração de colágeno têm aberto amplo campo de possibilidades para a utilização da pele da tilápia.

A matriz dérmica, também denominada scaffold, é um arcabouço feito de colágeno puro, obtido através de um longo processo laboratorial de remoção das células do peixe. É por meio desse material que migrarão os elementos da cadeia da cicatrização da pele. Edmar Maciel, que, desde o início, é o coordenador-geral das pesquisas que envolvem a pele de tilápia, explica que essa matriz foi produzida para ser usada internamente no organismo, nas mais diversas especialidades médico-cirúrgicas.

Na odontologia, há estudos no Ceará e em São Paulo, na cidade de Bauru. Na Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, a pele da tilápia está sendo estudada para reparo e proteção do palato (tecido da parte superior da boca) após remoção de enxertos, de forma a proteger a mucosa oral.

Através desse colágeno extraído da pele do peixe, também são desenvolvidos estudos nas áreas de cosmetologia e nutrição, que estão em fase inicial e em busca de investimentos. Na primeira, o objetivo é a obtenção de cosméticos para a utilização em todas as partes do corpo. Já na nutrição, explica Maciel, a expectativa é o desenvolvimento de um nutracêutico (componentes alimentares feitos de nutrientes, vitaminas, minerais e outros compostos encontrados em alimentos), a ser disponibilizado em forma de comprimido ou cápsula para ser testado com ingestão via oral.

Conforme o coordenador-geral, desde o início de 2018, pesquisas laboratoriais e em animais estão sendo realizadas em 13 especialidades médicas, envolvendo a matriz dérmica ou scaffold, entre elas: cirurgia geral (hérnia abdominal), cirurgia plástica (queimaduras e prótese mamária), cardiologia (válvulas e vasos), ginecologia (vagina, levantamento de útero e bexiga), neurologia (recobrimento de meninge), urologia (reconstrução de uretra e doença de Peyronie), otorrinolaringologia (perfuração de tímpano), endoscopia (fístula esofágica), oftalmologia (lesões de córnea), entre outras.

O coordenador-geral das pesquisas explica que esses procedimentos médicos, hoje, são feitos na rede pública brasileira e em outros países do continente americano por meio da utilização de produtos importados, que geram alto custo. A utilização da pele de tilápia, abundante e de baixo custo, pode ser uma alternativa mais econômica e que traz consigo diversas outras vantagens clínicas.

Outros estudos, em fase inicial, utilizam a extração do colágeno da pele do peixe para confecção de pomada e spray, com uso em queimaduras e feridas. Edmar Maciel também destaca que o processo de desidratação da pele da tilápia, já obtido, permite que o produto possa ser mantido em prateleira e embalado a vácuo, facilitando a logística e garantindo a redução nos custos para transporte da pele.

NPDM – As pesquisas pré-clínicas com a pele da tilápia tiveram início no Núcleo de Pesquisas e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da UFC, laboratório que tem grande relevância para o avanço dos estudos. "O NPDM foi muito importante para as descobertas iniciais, principalmente a da presença de colágeno tipo I na pele da tilápia (Profª Ana Paula Negreiros e sua equipe), e para o desenvolvimento dos produtos", destaca Edmar Maciel.

A etapa pré-clínica durou 18 meses na UFC, contando com 11 etapas, entre as quais a esterilização da pele, os estudos toxicológico e microbiológico e os testes em animais. O processo final de esterilização necessita de irradiação, realizada no Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares (IPEN-SP), sob a coordenação da Profª Mônica Mathor, através de uma parceria de pesquisa. Só a partir de todos esses processos a pele começou a ser testada em pessoas, em 2016, inicialmente no IJF.

"Eu e a Universidade temos um compromisso de levar adiante esse projeto, que poderá gerar um bem-estar social inimaginável. Essa pesquisa é um clamor social e existe a necessidade que esses produtos cheguem à rede pública brasileira. Não mediremos esforços para sua continuidade", defende Edmar Maciel.

Por Sérgio de Sousa

Fonte: Edmar Maciel, coordenador-geral da pesquisa com pele de tilápia – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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